domingo, 12 de dezembro de 2010

O HOLISMO APLICADO AO CONHECIMENTO AMBIENTAL por Julio C. Wasserman e Albano R. Alves

O HOLISMO APLICADO AO CONHECIMENTO AMBIENTAL
Julio C. Wasserman1
Albano R. Alves2
Resumo: A abordagem holística pode ser definida de maneira aproximada como aquela que considera
as infinitas interações entre os diversos componentes de um sistema complexo. Alguns autores têm
chamado esta visão do funcionamento das coisas do Universo como abordagem sistêmica. As áreas em
que esta abordagem pode ser aplicada variam desde a astrofísica até a gestão de negócios, mas uma área
onde o holismo é particularmente útil é a ciência da natureza. A dificuldade na aplicação da abordagem
holística às ciências naturais vem da inexistência de metodologias bem estabelecidas e testadas, levando
os cientistas a se depararem com um imenso abismo de conhecimentos, quando são levados a
entenderem processos de áreas diversas às quais está afeito. Um exemplo crítico pode ser obtido da
previsão de impactos ambientais, onde a aplicação de modelos numéricos demanda uma pesada carga de
conhecimento matemático, de forma que os processos sejam corretamente simulados. No caso, cada
passo do processo precisa ser equacionado da maneira mais precisa possível, caso contrário, erros
pequenos podem se multiplicar e gerar informações totalmente erradas. Já se observam equipes
interdisciplinares sendo formadas e gerando enormes avanços no conhecimento dos processos
ambientais, mostrando que, embora a formação científica seja ainda extremamente cartesiana, aprendese
na prática como fazer ciência holística.
Palavras-chaves: Holismo, Meio Ambiente, Interdisciplinaridade, Modelagem numérica

Abstract: The holistic approach can be roughly defined as a philosophy that considers the endless
interactions between various compartments of a complex system. Some authors have been calling this
view of the mechanisms and processes that control the phenomena of the Universe as systemic
approach. The areas where this approach can be applied range from astrophysics to business
management, but an area where holism is particularly useful is the science of the nature. The difficulties
of the application of the holistic approach to natural science, arise from the absence of well established
and tested methodologies, taking the scientists to face a huge gap of knowledge as they are forced to
understand processes in areas that are too far from those he is used to. A critical example can be
obtained from the prevision of environmental impacts, where the application of numeric modeling
requires a heavy load of mathematical knowledge, in order the processes are correctly simulated. In this
case, each step of the process needs to be equationed in a very precise manner; otherwise, small errors
can be magnified, generating completely false informations. Interdisciplinary teams are already being
gathered to solve specific environmental problems, which yield enormous advancements on the
knowledge of the environmental processes, showing that, although the scientific formation is still
Cartesian, holistic science can be learned in the practice.
Key-words: Holism, Environment, Interdisciplinarity, Numeric modeling

O HOLISMO NA CIÊNCIA AMBIENTAL

O conceito de Ciências Naturais é muito antigo e refere-se às diversas ciências que descrevem os processos e os elementos da natureza. Esta definição extremamente ampla foi utilizada até o final dos anos 50 no Brasil, como marco de formação dos cientistas que de alguma forma queriam estudar as coisas da natureza. A biologia, a química e até a física eram matérias constituintes deste tipo de formação, abrangendo também a geologia, a geografia e a oceanografia entre outras. Esta formação generalista era possível, pois primeiramente o montante de conhecimento acumulado ainda não era tão significativo, mas, sobretudo a formação em ciências naturais não era uma demanda de sociedade, que pouco valorizava o conhecimento natural e os cientistas ainda eram considerados apaixonados e sonhadores. Com o processo de conscientização ecológica que surge em todo o mundo nas décadas de 60 e 70, que culminou com a Conferência de Estocolmo de 1972, ocorre uma “profissionalização” dos cientistas que se voltavam para o conhecimento da natureza, passando a especializar-se cada vez mais. A especialização é um processo que se observa em todas as áreas e, particularmente surtiu excelentes resultados na mecanização dos meios de produção.
Passamos então a contar com especialistas que tratavam de temas muito específicos e, apesar de interessantes, em nada contribuíam à preservação e ao equilíbrio do meio ambiente e à evolução da humanidade. A Ecologia, uma ciência que tratava das relações entre os organismos é que passa a valorizar a interação entre os componentes de sistemas. Observou-se que o funcionamento dos sistemas complexos, tais como os ecossistemas, não podia ser tratado segundo uma abordagem reducionista onde o todo é a simples soma das partes. Em um ecossistema, se um organismo interage com o outro, como seria possível entender seus respectivos comportamentos estudando-os separadamente?
O reducionismo, que é uma filosofia científica que impregna o pensamento da humanidade desde o conceito do átomo de Demócrito, no século 5 A.C., precisava ser revisto. Por volta de1920, Jan Christiaan Smuts concebe o termo holismo com a seguinte definição: “The tendency in nature to form wholes, that are greater than the sum of the parts, through creative evolution”. Segundo este conceito, a soma das partes não explica o todo. Devido à dificuldade de se explicar os processos que levam ao holismo, o conceito foi associado processos sobrenaturais. Contudo, nos últimos anos, a idéia de que nem tudo o que não entendemos é sobrenatural, vem ganhando espaço e consolidando o holismo como filosofia científica.
Apesar dos marcos teóricos, na prática ainda formamos nossos cidadãos em uma estrutura extremamente reducionista. Mesmo o Construtivismo de Piaget3 que hoje já é aplicado nas estruturas curriculares de muitas escolas, ainda não atinge os níveis superiores da formação e cientistas ainda são formados segundo princípios educacionais antiquados. O holismo só aflora na formação do cientista quando este se depara com problemas que demandam interação de conhecimentos levando-o a um traumático processo de tentativa e erro. O trabalho de Vallega (1999) é um interessante exemplo da aplicação do holismo a problemas de gestão ambiental.
(...)
4- CONCLUSÃO
A natureza pode ser considerada como um sistema complexo e para que o homem entenda os processos que regem sua dinâmica é necessário abordá-la com uma visão multifocal.
Embora alguns cientistas já tratem os problemas ambientais de maneira integrada, a ausência de métodos adequados à aplicação da abordagem holística dificulta sua disseminação.
Neste trabalho, foi demonstrado como a abordagem holística pode facilitar de maneira significativa o entendimento dos processos ambientais. O não entendimento de todos os fatores que afetam a dinâmica de um sistema complexo pode levar a conclusões errôneas. No caso da laguna de Piratininga, uma abordagem unidisciplinar, (hidráulica), levou à geração de uma solução muito simplista, que acabou se mostrando negativa para a saúde do ambiente.
No caso da modelagem da laguna de Saquarema, após um período de quase 10 anos, foi possível identificar a magnitude do erro gerado por uma modelagem simplificada. Seria catastrófico se nos anos 90 tivéssemos dimensionado o potencial de crescimento populacional das margens do sistema lagunar para um valor até 10 vezes superior ao que viria a ser determinado no modelo mais recente.
A modelagem numérica tem evoluído muito e atualmente os exercícios de calibração e validação têm demonstrado a eficiência das previsões, contudo, com os modelos determinísticos a responsabilidade do modelador é muito grande. No caso de Saquarema, a ampliação e perenização do canal de conexão com o mar, causaram problemas que ultrapassaram a capacidade de previsão dos modelos.
Em detrimento do projeto inicial e por falta de recursos, o quebra-mar de perenização foi construído muito curto, de tal forma que permitiu a entrada de ondas dentro da laguna, o que já algumas vezes provocou inundações nas margens. Embora a população esteja sofrendo bastante, e os pesquisadores envolvidos já tenham proposto soluções, a postura das autoridades ainda é de negligência. Todos estes aspectos, mesmo os pouco ambientais, fazem parte da abordagem holística.

1 Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental - Universidade Federal Fluminense. Av. Litorânea s/n°, Boa Viagem,
Niterói, RJ, 24210-340, Brasil, e-mail: geowass@vm.uff.br
2 Diretoria de Hidrografia e Navegação, Marinha do Brasil. Ponta da Armação, Niterói, 24040-010, RJ, Brasil, e-mail:
albanoribeiro@terra.com.br
ENGEVISTA, v. 6, n. 3, p. 113-120, dezembro 2004 2
Fonte: http://www.uff.br/engevista/3_6Engevista10.pdf

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