HundertWasser
Homem-Húmus-Humanidade
Uma critica ao consumo através dos olhos de HundertWasser.
HundertWasser é sobretudo um pensador. Além de seus trabalhos como artista, ambientalista e arquiteto, por volta dos anos 60 e 70, ele propõe por novos caminhos uma moral prática da beleza, trilhas essas que são guiadas por uma reconstrução do modo de ver a vida e de agir sobre ela como um ser humano consciente e atuante em seu habitat.
É como artista que ele tomado pela verdade e força da beleza, enquanto pintor ele formula seu postulado, não mais que uma simples verdade: A natureza é um fim em si, nada existe fora dela, enquanto harmoniosa é bela, a arte é o caminho que nos conduz à beleza.
A sua reverência à criação é algo que pode ser comparado a fé religiosa, para HundertWasser é um terreno sagrado, um direito universal, por isso é considerado um religioso naturalista. É guiado por esse princípio de beleza que ele configura uma nova moral prática a nós. A sociedade em que vivemos, guiada para o consumo, é criminosa por nos desviar de nosso verdadeiro objetivo como homens, encontrar o nosso bem estar, viver bem e fazer o bem para nosso ambiente.
Algo que nos soa hoje como ingenuidade. Mas HundertWasser atua nessa ambivalência entre inocência e sabedoria. É uma verdade simples a que ele propõe, mas que se calca em ações, é na pratica que essa moral se funda.
Para isso ele propõe um método: 5 peles. Uma para cada esfera de nosso ser.
A primeira pele, a epiderme. Em cima de manifestos e ações ele questiona a estruturação de seu habitat e o modo em que vivemos nele e aponta aqui, o direito a criação, a arte como um gênero de vida, uma nova orientação à matéria. Através da "Metáfora do Bolor" fica a indicação, "cada habitante deve cultivar o seu próprio bolor doméstico", dando por fim a tendência tão comum de distanciamento do homem com a natureza em prol de uma falsa assepsia. O que é proposto aqui é um retorno da participação do homem ao ciclo orgânico da matéria, como ser biológico habitante deste planeta. " A merda transformou-se em ouro e HundertWasser sente-se bem na sua primeira pele. É tempo de passar ao segundo nível da consciência de homem-Deus"(HundertWasser, Taschen, pág.32).
A segunda pele é o vestuário, a criação e consumo em série são questionados, na medida em que eles omitem o homem de afirmar a sua singularidade em sua vestimenta, HundertWasser aponta uma renúncia ao individualismo, um anonimato do vestuário, onde todos são afetados por 3 males: a uniformidade, a simetria e a tirania da moda. Em contraposição ele cria suas próprias roupas, afirmando-as como seu passaporte social, aproveitando-as em sua riqueza de formas e cores e acima de tudo, afirmando o direito à diversidade.
A terceira pele, a casa, segue a espiral de seu pensamento, e nosso visionário humanista faz um chamado: "O teu direito de janela – o teu dever de árvore. Homens e mulheres criativos, tens o direito de enfeitar a teu gosto, e tão longe quanto teu braço alcance, a tua janela ou fachada exterior"(HundertWasser, Taschen, pág.27). Ele caminha mais um pouco e une cada vez mais estética e moral. A casa do homem é o tema, e a discussão sobre a uniformidade das criações humanas retorna, a arquitetura racionalista é criticada em prol do fim da linha reta, o retorno ao traço orgânico e individual é afirmado também na arquitetura. Além da reforma de fachadas, cunhando o termo redesign, no qual cada morador tem o direito de enfeitar sua moradia.
HundertWasser propõe uma reestruturação da arquitetura, que consiste em singulares projetos, muitos realizados, de casas com relva no telhado com intuito de purificar a água da chuva, filtrando-a e regenerando o ciclo da vegetação, através também da utilização do húmos da matéria orgânica produzida pelos moradores da casa. A beleza, para ele, é sempre funcional. O que é proposto é um habitat reflexão, com terraços jardins, varandas bosques e pontos de encontro para promover a interação entre os moradores.
Quanto à estética das casas, ele procura sempre a integração com a natureza, janelas irregulares, primazia de cores naturais e claro, nada de linhas retas. " Quando deixamos a natureza repintar as paredes, elas tornam-se humanas e nós podemos voltar a viver."(HundertWasser, Taschen, pág.45).
A quarta pele, a que se refere ao meio social, é a pele que comenta a formação da identidade, interessando muito a HundertWasser a questão da identidade nacional. Selos postais, bandeiras, moedas, placas são mais um dos alvos de seu pensamento, como objetos símbolos ele os recria. A quinta pele é a ecologia, a preocupação e o cuidado com o meio global. É aqui que a sua consciência eco-naturalista reina, é sobre esta pele que os já comentados projetos arquitetônicos bastante ousados são realizados e uma série de outros projetos e campanhas que ele se envolve em prol de um mundo mais harmônico, com mais respeito a natureza – "És um hóspede da natureza" (HundertWasser, Taschen, pág.83).
É sobre esse ponto que gostaria de apontar sua postura frente a ecologia que vem, sobretudo a partir dos anos 80, ganhando espaço e visibilidade. Em decorrência disso, a política tem se apropriado do discurso, a moda também, e isso para ele chega a complicar um pouco mais a questão :
"Eu sou tolerante. Mas revolto-me. Acuso. É a minha obrigação. Estou sozinho. Por trás de mim não há qualquer ditadura, qualquer partido, qualquer grupo, nem qualquer máfia. Nem um esquema intelectual coletivo, nem uma ideologia" (HundertWasser, Taschen, pág.84).
Ainda diz:
" A revolução verde não é uma revolução política. É suportada pela base e não é nem minoritária nem elitista. É uma evolução criadora em harmonia com o curso orgânico da natureza e do universo." (HundertWasser, Taschen, pág.83).
O meu interesse aqui nesse artigo é tratar desse pensamento com o olhar voltado para o design, isso significa que essa demonstração de responsabilidade soberana sobre a vida é sim, um assunto muito importante nesse campo. HundertWasser passa por inúmeras esferas do homem e promove em cada uma delas uma total atitude consciente e livre. E como podemos observar, esse discurso é hoje muito utilizado em produtos que, muitas vezes, se tornam elitistas e são unicamente utilizados pelas classes mais abonadas da sociedade. Em vez de se tornarem uma alternativa ao consumo desenfreado e cego, eles se encaixam como mais um luxo.
Sygmund Bauman, em seu livro Modernidade Liquida, evidencia essa relação de consumo relacionada ao que está em voga, ao que está na moda. O consumidor é levado consumo desse estilo de vida e ao fazê-lo, se eleva na hierarquia da cadeia social numa busca constante a um padrão de vida x ou y.
Isso para Bauman nada tem a ver com o que ele chama de uma nova orientação à matéria, que teria esse consumidor criativo, em busca de uma auto expressão, uma auto realização, e que é expressivo em sua relação com o mundo. A questão aqui é por que ocorre a constante delimitação de território desses produtos? Por que o popular não abrange também esses produtos? Será só uma questão de preço, ou há um interesse em deixar esses produtos como iguarias?
Papanek é outra figura que nos anos 60 cria alternativas de consumo, com baixos preços e produtos com a idéia " faça você mesmo", buscando impedir também que qualquer empresa pudesse patentear seus projetos. Para ele, a opção individual pelo que e quanto consumir, essa responsabilidade do próprio consumidor é a solução dos problemas ecológicos.
A esse respeito, no livro "Uma Introdução á História do Design", Rafael Cardoso cita a crise do petróleo como marco de um questionamento a respeito da capacidade de produção frente à cada vez maior demanda de consumo. Ele também identifica nos anos 80, uma nova estratégia de mercado para lidar com essa questão de preocupação com o meio ambiente e com a produção: o surgimento de um novo consumidor disposto a pagar mais caro em produtos com a premissa ecológica, voltados para esse consumidor ecologicamente correto.
Sobre esse ponto podemos analisar o caso do couro vegetal, um produto desenvolvido no norte do país, à base de látex natural, confeccionado num esquema produtivo relativamente barato, com mão de obra barata, chega ao Rio com preços abusivos na loja Amazon Life em Ipanema.
Esses produtos, feitos com um material brasileiro, num processo tradicional dos seringueiros amazonenses, possibilidade barata de alternativa de consumo, é selecionado e discriminado como um consumo de alto padrão, é quase todo produzido para exportação. Depois de ser patenteado pela Treetap, e entrar no jargão Amazon Products, é quase que excluído da possibilidade de consumo da própria população brasileira.
HundertWasser foi um visionário capaz de engendrar um pensamento e de predizer seus venenos. Como pudemos ver em suas falas sobre a revolução verde, ele pôde prever o alcance de suas idéias e os desvios na trajetória do homem frente à elas.
Nós, como seres humanos, podemos fazer algumas escolhas, e repensar como designers o processo pelos quais os produtos passam até chegarem ao consumidor, e se o consideramos correto ou não . E agir sobre essa responsabilidade é o mais difícil, talvez HunderWasser seja capaz de nos dar aquele fôlego a mais.
Termino esse artigo coma famosa frase do movimento ambientalista dos anos 90, "pense em escala global, atue em escala local." Nossa consciência está nesse ponto entre as possibilidades infinitas da subjetividade e a precisão indiscutível da atitude.
Bibliografia:
Sites:
http://www.leninimports.com/hundertwasser_bio.html
http://www.grinch.ca/HTML/Hundertwasser/Hundertwasser.htm
http://www.artchive.com/artchive/H/hundertwasser.html
http://www.treetap.com.br/
http://www.amazonlink.org/seringueira/couro_vegetal.html
Livros:
Restany, Pierre. HundertWasser. Glarus, Taschen, 2003.
Bauman, Zygmunt. Modernidade Liquida. Rio de Janeiro. Jorge Zahar,2001.
Bauman, Zygmunt. Comunidade. Rio de Janeiro. Jorge Zahar, 2001.
Cardoso, Rafael. Uma Introdução á História do Design.Editora Edgard Blucher Ltda, 2004.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Homem-Húmus-Humanidade - Uma critica ao consumo através dos olhos de HundertWasser
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