segunda-feira, 26 de setembro de 2016

CRÍTICA GENÉTICA EM EXPANSÃO
Cecilia Almeida Salles; Daniel Ribeiro Cardoso

A crítica genética, em seu surgimento, propunha o acompanhamento teórico-crítico do processo de criação na literatura; no entanto, já trazia consigo a possibilidade de explorar um novo campo transdisciplinar, que nos levaria a poder discutir o processo criador em outras manifestações artísticas. Essa ampliação dos estudos genéticos parecia já estar inscrita na própria definição de seu propósito e de seu objeto de estudo. Se os estudos genéticos tinham como objetivo compreender o processo de constituição de uma obra literária e seu objeto de estudo eram os registros do escritor encontradas nos manuscritos, esse campo de pesquisa deveria quase que necessariamente romper a barreira da literatura e ampliar seus limites para além da palavra, pois processo e registros são independentes da materialidade na qual a obra se manifesta e independentes, também, das linguagens nas quais essas pegadas se apresentam. Seria possível, portanto, conhecer alguns dos procedimentos da criação, em qualquer manifestação artística, a partir desses registros deixados pelos artistas.

Em 1992, quando a primeira edição do livro Introdução aos estudos genéticos foi publicada, esses novos rumos já estavam, de certo modo, sendo delineados. Tinha-se discutido, ali, os estudos em crítica genética limitados ao manuscrito literário. "Foi assim que nasceram e assim estão sendo desenvolvidas as pesquisas até o momento. No entanto, sabemos ser inevitável a necessidade de ampliar seus limites. Certamente, ouviremos falar, em muito pouco tempo, sobre estudos de manuscritos em artes plásticas, música, teatro, arquitetura até manuscritos científicos. Isto oferece novas perspectivas para pesquisas sobre as especificidades e as generalidades dos processos criativos artísticos, para não mencionar a possibilidade de se adentrar o interessante campo de pesquisa dedicado à relação ciência/arte – agora sob a ótica genética"(1).
Hoje, os estudos genéticos abarcam os processos comunicativos em sentido mais amplo, a saber, literatura, artes plásticas, dança, teatro, fotografia, música, arquitetura, jornalismo, publicidade etc. Essa ampliação deve-se, inicialmente, às contribuições teóricas e metodológicas trazidas na tese "Criação em processo: Ignácio de Loyola Brandão e Não verás país nenhum" (2), defendida em 1990 por Cecilia Salles, assim como às pesquisas desenvolvidas pelo Centro de Estudos de Crítica Genética do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (CECG-PUC/SP). Pierre-Marc de Biasi, de modo semelhante, prevê esses novos direcionamentos da crítica genética, em seu artigo "Lhorizon génétique" (3).
Trata-se de uma abordagem para a obra de arte a partir do acompanhamento dos documentos desses processos, tais como, anotações, diários, esboços, maquetes, vídeos, contatos, projetos, roteiros, copiões etc. Na relação entre esses registros e a obra entregue ao público, encontramos um pensamento em processo. E é exatamente como se dá essa construção o que nos interessa. Uma abordagem crítica que procura discernir algumas características específicas da produção criativa, ou seja, entender os procedimentos que tornam essa construção possível. Tendo em mãos os diferentes documentos deixados pelos artistas, ao longo do processo, o crítico estabelece nexos entre os dados neles contidos e busca, assim, refazer e compreender a rede do pensamento do artista. A metodologia dessas pesquisas se assenta naquilo que Morin (4), ao discutir a reforma do pensamento em direção ao desenvolvimento de uma inteligência mais geral, descreve como "arte de transformar detalhes aparentemente insignificantes em indícios que permitam reconstituir toda uma história". Uma abordagem cultural em diálogo com interrogações contemporâneas, que encontra eco nas ciências que discutem verdades inseridas em seus processos de busca e, portanto, não absolutas e finais.

É interessante observar que, de modo especular, a crítica genética passa por ajustes, a medida em que vai se desenvolvendo. Em nome de sua inevitável expansão, sofre rasuras transformadoras que exigem ajustes conceituais, teóricos e metodológicos. Uma dessas adequações diz respeito a seu objeto de estudo – o manuscrito. Nos estudos de crítica genética de literatura, o termo manuscrito já não era usado limitando-se a seu significado de "escrito à mão". Dependendo do escritor, podíamos nos deparar com documentos escritos à máquina, à mão, digitados no computador ou provas de impressão, que receberam alterações por parte do próprio autor.
Lidando com as outras manifestações artísticas, as dificuldades de se adotar o termo manuscrito aumentaram. Seria difícil continuar falando de esboços, ensaios, partituras, copiões, contatos e maquetes como manuscritos, que estavam estreitamente ligados à linguagem verbal. Buscou-se um outro termo que desse conta da diversidade das linguagens. Documentos de processo pareceu cumprir essa tarefa (5). Acredito que este termo nos dá mais amplitude de ação. Fica claro que os manuscritos dos escritores são documentos (ou registros) dos processos de criação literária.
Pode-se dizer que esses documentos, independente de sua materialidade, contêm sempre a idéia de registro. Há, por parte do artista, uma necessidade de reter alguns elementos, que podem ser possíveis concretizações da obra ou auxiliares dessa concretização. Cada tipo de documento oferece ao crítico informações diversas sobre a criação e lança luzes sobre momentos diferentes desse percurso.
Pretendemos, com as reflexões que esses documentos proporcionam, oferecer uma outra maneira de se aproximar da arte, que incorpora seu movimento construtivo. Trata-se de uma discussão das obras como objetos móveis e inacabados, que difere significativamente dos estudos sobre os fenômenos artísticos, em suas diversas manifestações, que discutem os produtos assim como são mostrados publicamente.

É sempre interessante lembrar que o histórico desses estudos tem datas bem delimitadas se levarmos em conta a natureza oficial, no campo científico, do nome crítica genética:1968, França, com a criação do Institut de Textes et Manuscrits Modernes (ITEM/CNRS). Muitos outros críticos fizeram estudos genéticos sem receber o nome de crítica genética. Rudolf Arnheim (6), por exemplo, que publicou em 1962, The genesis of a painting. Picassos Guernica, onde são esmiuçados os esboços da Guernica para conhecer o nascimento, movimentos e relações das personagens de Picasso. Italo Calvino (7), em seu livro Seis propostas para o próximo milênio, vê os manuscritos de Leonardo da Vinci abrindo uma fresta para o funcionamento de sua imaginação. Não se pode esquecer, também, do texto de Roman Jakobson (8), Yeats "Sorrow of Love" através dos anos, publicado em 1977 .
As artes visuais são, e sempre foram, no Brasil e no exterior, alvo de inúmeras exposições de esboços, rascunhos ou cadernos de artistas; porém, não são todas que deixam o processo aparente. Desenhos isolados não são documentos processuais, pois não têm o poder de indiciar o desenvolvimento de um pensamento em criação. O Museu Rodin, em Paris, muitas vezes, oferece esse tipo de exposição que apresenta desenhos e moldes de uma obra específica. A exposição Paraíso, de Arthur Luiz Piza, no Instituto Moreira Salles (9), para citar outro exemplo, onde foram expostos os cadernos de anotações do artista. Segundo Piza (10), ele nunca volta atrás, não tem julgamentos em relação a esses cadernos, "não passam por processos de obras". Essas "confissões pessoais" (como ele chama) ganharam reproduções: as imagens foram escaneadas e emolduradas.
A exposição Gaudí - A procura da forma (11) centrou-se, particularmente, na lógica das operações e transformações empregadas no processo de criação das formas para constituição dos espaços arquitetônicos inusitados, característica própria do artista catalão. Fotos de obras, esboços e maquetes são colocadas lado a lado com instigantes simulações que jogam luz sobre seu processo criativo. Observa-se que Gaudí parte de elementos básicos – volumes e superfícies – para em seguida, aplicar operações geométricas e transformações topológicas em busca das superfícies e efeitos desejados. Tem-se a certeza, ao sair da exposição, de ter conhecido, acima de tudo, um Gaudí geômetra.



É importante ressaltar duas questões que sempre surgem quando se apresenta essa abordagem para a obra artística. Por um lado, embora se tenha a consciência de que o crítico genético não tem acesso a todo o processo de criação – não há a ilusão da totalidade – mas apenas a alguns de seus índices. Pode-se, no entanto, afirmar, com certa segurança, que convivendo, observando e estabelecendo relações entre os documentos do processo que se teve acesso, pode-se conhecer melhor o percurso da formação da obra, em pesquisas de natureza indutiva. Sob esse ponto de vista, não há a pretensão de encontrar fórmulas explicativas para esse fenômeno de grande complexidade mas a tentativa de se aproximar, por diferentes ângulos, desse processo responsável pela geração de uma obra.
Por outro lado, enfatiza-se que se trata de uma outra possível abordagem para a arte, que caminha lado a lado com as críticas das obras, assim como foram entregues ao público. Trata-se, portanto, de um encontro bastante fértil com as críticas de obras.
Quanto à abordagem teórica dada aos documentos dos processos criativos, pode-se afirmar que os pesquisadores devem procurar, antes de mais nada, por teorias adequadas a objetos em movimento, na medida em que o propósito é a compreensão de processos. Já em outro nível, cada investigador direciona sua pesquisa para metas mais específicas, de acordo com o que seu material fornece, isto é, as especificidades dos documentos com os quais ele está trabalhando e, também, de acordo com as explicações por ele buscadas.
As diferentes abordagens, mantendo suas singularidades, têm contribuído para uma ampliação de nosso conhecimento sobre o objeto estudado. Os pesquisadores passam a saber cada vez mais sobre o processo criativo graças aos diferentes resultados das diversas pesquisas dedicadas a esse assunto. É aqui que apontamos para a importância do diálogo entre os pesquisadores, essência de uma prática científica, onde se chega a resultados de natureza geral – pontos comuns a partir de diferentes abordagens – e, ao mesmo tempo, chega-se a resultados de caráter singular. São as especificidades relativas ao poder de cada instrumental teórico. A reunião desses resultados leva ao enriquecimento da explicação que se pode dar ao fenômeno processo de criação.
A crítica genética vinha se dedicando a estudos de casos: análise e interpretação do processo criador de determinados artistas. Pesquisas com o propósito de entrar na singularidade de um processo criativo. Neste contexto, foram produzidos muitos artigos, teses, dissertações que se dedicam ao acompanhamento da produção de obras de Daniel Senise, Ignácio de Loyola Brandão, Evandro Carlos Jardim, Regina Silveira, Graciliano Ramos, Carlos V. Fadon, Lucas Bambozzi, Eugène Delacroix, Paul Gauguin, Joan Miró, Luis Paulo Baravelli, Roberto Santos, Elizabeth Bishop, Cildo Meireles, Caio Reisewitz, para citarmos somente alguns.
Por necessidade científica, mais recentemente, alguns pesquisadores vêm avançando em direção a uma generalização sobre o processo de criação, levando a princípios que norteiam uma possível teoria da criação. É o estudo das singularidades buscando generalizações.
A análise de documentos de diferentes meios de expressão possibilitou-nos chegar a algumas caracterizações, de natureza geral, sobre o ato criador. As comparações e contrastes entre as singularidades, mais a adição de informações advindas das mais diversas fontes como depoimentos, entrevistas, diários, making offs apontam para o encontro desses instrumentos analíticos de caráter mais geral.
A diversidade de estudos de documentos de artistas específicos nos permite encontrar assim alguns procedimentos de natureza geral, que ganham nuances em processos específicos. São essas variações que nos levam às singularidades dos procedimentos de um artista determinado. O percurso da criação mostra-se como um emaranhado de ações que, em um olhar ao longo do tempo, deixam transparecer repetições significativas. É a partir dessas aparentes redundâncias que se pôde estabelecer algumas generalizações sobre o fazer criativo, a caminho de uma teorização. Não seriam modelos rígidos e fixos que, normalmente, mais funcionam como fôrmas teóricas que rejeitam aquilo que nelas não cabem. São, na verdade, instrumentos que permitem a ativação da complexidade do processo. Não guardam verdades absolutas, pretendem, porém, ampliar as possibilidades de discussão sobre o processo criativo.
É nesse ambiente que os livros Gesto inacabado: processo de criação artística (12) e Redes da criação: construção da obra de arte (13) se inserem: apresentação e discussão dessa morfologia do processo criador. Uma possível teoria da criação com base na semiótica de Charles S. Peirce, que teve como ponto de partida os estudos singulares de documentos de processos e, ao mesmo tempo, alimenta-se dessas mesmas pesquisas. São guias condutores flexíveis e gerais o suficiente para retornarem depois aos processos específicos. Semelhante à busca de Eisenstein (14), procuramos por uma morfologia "volátil e não um cânone inflexível".



Para alcançar esse objetivo, recorremos a documentos de áreas diversas: registros de escultores, cineastas, videomakers, escritores, pintores, coreógrafos, arquitetos etc. As diferentes manifestações artísticas se cruzam em reflexões sobre modos de criação, abrindo assim diálogo com todos aqueles que, por motivos os mais diversos, se interessam pela criação artística.
Para desenvolver tais discussões, são estabelecidos diálogos entre pensadores da filosofia e da arte e os próprios artistas. Reflexões gerais que mantêm diálogo permanente com os documentos dos artistas. Seus relatos, desse modo, trazem de volta a experiência múltipla e vívida que alimenta toda a reflexão teórica. Esses exemplos devem ser vistos como seleções feitas daqueles considerados mais significativos para ampliar a compreensão sobre os aspectos do processo criativo, que está sendo enfocado.
Gesto inacabado se propunha a pensar o processo de criação artística, mas estava, provavelmente, indo além dos limites desse objeto específico. Pretendia-se, naquele momento, "oferecer mais do que um simples relato de uma pesquisa, mas uma possibilidade de se olhar para os fenômenos em uma perspectiva de processo". Estávamos, de certo modo, oferecendo alguns instrumentos para uma teorização que se ocupa dos fenômenos em sua mobilidade.
Acreditamos que essas discussões tornaram-se fundamentais para se pensar certas questões contemporâneas, que envolvem, por exemplo, a autoria e a intrincada relação obra & processo. As reflexões teóricas que trazem essa perspectiva processual para a arte ultrapassam, portanto, os ditos bastidores da criação. Daí percebermos que estávamos diante de recursos teóricos para desenvolver uma crítica de processo, que parecia abranger mais do que a crítica genética. Muitas questões de extrema importância para se discutir a arte em geral e aquela produzida nas últimas décadas, de modo especial, necessitam de um olhar que seja capaz de abarcar o movimento.
Algumas obras, incluindo todo o potencial que as mídias digitais oferecem, parecem exigir novas abordagens. Ao mesmo tempo, muitas dessas obras exigem novas metodologias de acompanhamento de seus processos construtivos e não somente a tradicional coleta de documentos, no momento posterior à apresentação da obra publicamente, isto é, a abertura das gavetas dos artistas para conhecer os registros das histórias das obras. Muitos críticos de processos passaram a conviver com o percurso construtivo em ato. Algumas obras contemporâneas – mas não só – incitam, ou mesmo forçam, a constituição de novas metodologias para abordar seus processos de criação. Ao mesmo tempo, os resultados desses estudos mudam, de alguma maneira, os modos de abordá-las sob o ponto de vista crítico.
Essas novas questões, que pareciam merecer maior atenção, exigiam novas formas de desenvolvimento do pensamento que dessem conta de múltiplas conexões em permanente mobilidade. Chega-se, assim, às redes.
A perspectiva processual, se levada às ultimas conseqüências, não se limita, portanto, a documentos já produzidos, que, portanto, pertencem ao passado das obras. Ficou claro que estavam sendo construídos instrumentos teóricos, que se ocupam de redes móveis de conexões. Ao olhar retrospectivo da crítica genética, estávamos adicionando uma dimensão prospectiva, oferecendo em abordagem processual. Surge, assim, a crítica de processo.

Cecilia Almeida Salles é professora titular do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Coordena o Centro de Estudos de Crítica Genética da PUC/SP e é pesquisadora do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética da USP.
Daniel Ribeiro Cardoso é doutorando em comunicação e semiótica pela PUC/SP. Pesquisador do Centro de Estudos de Crítica Genética da PUC/SP e do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Crítica Genética da USP.


NOTAS E REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Salles, Cecília A. Crítica genética: uma introdução. São Paulo: Educ, p 106. 1992.
2. Salles, Cecilia A."Criação em processo: Ignácio de Loyola Brandão e Não verás país nenhum". Tese de doutorado. PUC/ SP, 1990.
3. Biasi, Pierre-Marc. "Lhorizon génétique". In L. HAY (org.), Les manuscrits des écrivainsParis: Hachette/CNRS Editions, 1993.
4. Morin, Edgar. A inteligência da complexidade. São Paulo: Peirópolis, p 23. 2000.
5. Salles, Cecília A. crítica genética: uma (nova) introdução. São Paulo: Educ, 2000.
6. Arnheim, Rudolf. El "Guernica" de Picasso - Génesis de una pintura. Barcelona: Ed. Gustavo Gili, 1976.
7. Calvino, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
8. Jakobson, Roman. Poéticas em ação. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1990.
9. Piza, Arthur L. Paraíso. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2005.
10. Piza, Arthur L. op cit. pp 04 e 08. 2005.
11. Gaudí, Antoni. Gaudí: A procura da forma. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2004.
12. Salles, Cecília A. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 1998.
13. Salles, Cecília A. Redes da criação: construção da obra de arte. Vinhedo: Ed. Horizonte, 2006.
14. Eisenstein, Serguei. Memórias imorais. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

 em http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252007000100019&script=sci_arttext

domingo, 12 de dezembro de 2010

Instruções para Kali Yuga

Tuesday, August 26, 2008

Instruções para Kali Yuga
A KALI YUGA ainda tem mais ou menos 200 mil anos para brincar - uma boa notícia para advogados e avatares do Caos, mas uma má notícia para brâmanes, jeovista, deuses da burocracia e seus lacaios. Eu sabia que Darjeeling guardava alguma coisa para mim assim que ouvi o seu nome - dorje ling - cidade o trovão. Cheguei um pouco antes das monções, em 1969. Antiga estação montanhosa britânica, sede de verão para o governo de Bengala - ruas com a forma de escadas de madeira curvas, do mercado avistava-se Sikkim e o Monte Katchenhunga - templos e refugiados tibetanos - belas pessoas de porcelana amarela chamadas Lepchas (os verdadeiros aborígenes) - hindus, muçulmanos, nepaleses e budistas butaneses, além de ingleses decadentes que perderam o caminho para casa em 1947, ainda à frente de bancos antiquados e lojas de chá. Conheci Ganesh Baba, um saddhur gordo e de barbas brancas com um hiperimpecável sotaque de Oxford - nunca vi ninguém fumar tanta maconha, um narguilé cheio após o outro, perambulávamos pelas ruas, onde ele jogava bola com crianças barulhentas ou arrumava brigas nos bares, perseguindo funcionário do comércio assustados com seu guarda-chuva, e morrendo de rir. Ele me apresentou a Sri Kamanaransan Biswas, um homem de meia-idade, pequeno e delicado, metido num terno surrado. Era funcionário do governo de Bengala e se ofereceu para me ensinar tantra. O senhor Biswas vivia num minúsculo bangalô empoeirado num morro íngreme, enevoado e salpicado de pinheiros, onde eu o visitava diariamente com doses de conhaque barato para puja e bebericagens - ele me encorajava a fumar enquanto conversávamos, um vez que, para Kali, também a maconha é sagrada. Em sua selvagem juventude, o senhor Biswas havia sido membro do Partido Terrorista de Bengala, que incluía tanto adoradores de Kali e místicos muçulmanos heréticos quanto anarquista e extremistas de esquerda. Ganesh Baba parecia provar esse passado secreto, como se fosse um sinal da força tântrica oculta do senhor Biswas, escondida por trás de sua aparência externa dócil e acomodada. Nós discutimos minhas leituras de Sir John Woodruffe (Arthur Avalon) todas as tardes. Eu caminhava até lá através da neblina fria do verão, de armadilhas de espíritos tibetanas adejando na brisa úmida que surgia da bruma e dos cedros. Praticávamos o Tara-mantra e o Tara-mudra (ou Yoni-mudra), e estudávamos o diagrama Tara-iantra para fins mágicos. Um vez, visitamos um templo para o Marte hindu (como o nosso, ao mesmo tempo planeta e deus da guerra), onde ele comprou um anel de dedo feito de prego de ferradura de cavalo e me deu. Mais conhaque e maconha. Tara: uma das formas de Kali, muito semelhante em atributos. Meio anã, nua, com quatro braços armados, dançando sobre um Shiva morto, colar de crânios de cabeças cortadas, língua gotejando sangue, pele de um profundo azul-cinzento (a cor precisa das nuvens das monções). Todo dia, mais chuva - deslizamentos de terra bloqueando as estradas. Meu visto de permanência em área fronteiriça expira. O senhor Biswas e eu descemos as deslizantes montanhas do Himalaia de jipe e de trem rumo à sua cidade natal, Siliguri, localizada nas planícies de Bengala, onde o Ganges estendeu-se num encharcado delta verdejante. Visitamos sua esposa no hospital. No ano anterior, uma enchente havia submergido Siliguri e matado dezenas de milhares de pessoas. Houve uma epidemia de cólera, a cidade inteira parecia um naufrágio, manchada de algas e arruinada, as paredes do hospital ainda estavam empastadas de lodo, sangue, vômito, os líquidos da morte. Ela senta-se silenciosa na sua cama olhando sem piscar para destinos horrendos. O lado negro da deusa. Ele me dá uma litografia colorida de Tara que miraculosamente flutuou sobre a água e foi salva. Naquela noite assistimos a uma cerimônia no templo local para Kali, um pequeno, humilde e meio arruinado santuário à beira da estrada - a luz proveniente de tochas era a única iluminação - cânticos e tambores com uma síncope estranha, quase africana, totalmente anticlássica, primordial e no entanto insanamente complexa. Bebemos, fumamos. Só no cemitério, próximo a um cadáver meio-queimado, sou iniciado no Tara-Tantra. No dia seguinte, febril e distante, dou adeus e sigo Assam, para o grande templo do yoni de Shakti, em Gauhati, em tempo para o festival anual. Assam é território proibido e eu não tenho um visto. À meia-neite, em Gauhati, caio fora do trem, volto pelos trilhos sob chuva e com lama até os joelhos em total escuridão, ando às cegas até finalmente entrar na cidade e encontro um hotel cheio de insetos. Estou doente como um cão. Não durmo. De manhã, viagem de ônibus para o templo, que fica numa montanha próxima. Torres enormes, divindades populares, pátios, edifícios anexos - centenas de milhares de peregrinos - saddhus esquisitos vindos de suas cavernas de gelo atarracados em peles de tigres e cantando. Ovelhas e pombos estão sendo abatidos aos milhares, uma verdadeira hecatombe - (nenhum outro sahib branco em vista) - as sarjetas escoam uma polegada de sangue - espadas-Kali de lâmina curva cortam cortam cortam, cabeças mortas rolam nas pedra escorregadias da rua. Quando Shiva cortou Shakti em 53 pedaços e os espalhou sobre toda a bacia do Ganges, sua vagina caiu lá. Alguns sacerdotes amigáveis falam inglês e me ajudaram a encontrar a caverna onde o yoni está exposto. Nessas alturas, sei que estou seriamente doente, mas determinado a terminar o ritual. Uma multidão de peregrinos (todos ao menos uma cabeça mais baixos do que eu) literalmente me engolfam como a correnteza do mar e me carregam suspenso enquanto descemos umas escadas curvas, asfixiantes e trogloditas até entrarmos numa caverna-ventre claustrofóbica onde sou levando, tonto e nauseado, com alucinações, em direção a um meteorito, meio cônico, meio disforme, manchado por séculos de ghee e ocre. A multidão abre-se para mim e me permite atirar um guirlanda de jasmins sobre o yoni. Uma semana mais tarde, em Katmandu, dei entrada no Hospital Missionário Germânico (por um mês) com hepatite. Um pequeno preço a pagar para todo aquele conhecimento - o fígado de algum coronel aposentado de uma história de Kipling! - mas eu conheço ela, eu conheço Kali. Sim, absolutamente o arquétipo de todo aquele horror, mas, para aqueles que a conhecem, ela se torna a mãe generosa. Mais tarde, numa caverna na selva além de Rishikish, meditei sobre Tara por muitos dias (com mantra, iantra, mudra, incenso e flores) e retornei à serenidade de Darjeeling e de suas visões benéficas. Sua era deve conter horrores, pois a maioria de nós não pode compreendê-la ou alcançar a guirlanda de jasmins além do colar de crânios, percebendo até que ponto são a mesma coisa. Atravessar o caos, cavalgá-lo com um tigre, abraçá-lo (mesmo sexualmente) e absorver algo de sua shakti, sua força-vital - esses é o caminho da Kali Yuga. Niilismo criativo,. Para aqueles que seguem o caminho, ela promete iluminação e até mesmo riqueza, uma parcela de seu poder temporal. A sexualidade e a violência servem como metáforas num poema que age diretamente sobre a consciência através da Imagem-inação - ou talvez nas circunstâncias corretas elas possam ser abertamente distribuídas e gozadas, embebidas com o sentido do sagrado de cada coisa, desde o êxtase e o vinho até o lixo e os cadáveres. Aqueles que a ignoram ou a vêem fora de si mesmo estão arriscados de destruição. Aqueles que a adoram como ishta-devata, ou ser divino, degustam de sua Era do Ferro como se fosse ouro, conhecendo a alquimia de sua presença.
Posted by Timóteo Pinto at 3:52 PM
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Terra Oca

Tuesday, August 26, 2008

Terra Oca
Regiões Subterrâneas do continente escavadas em cavernas ciclópicas, redes fractais espaços que parecem catedrais, túneis labirínticos em forma de gargantas, rios subterrâneos vagarosos e negros, lagos estígios imóveis puros e levemente luminescentes, estreitas cachoeiras sobre rochas alisadas pela água, cortando florestas petrificadas de estalactites e estalagmites na complexidade dos desconcertantes peixes cegos exploradores de caverna e na vastidão insondável... Quem escavou esta terra oca debaixo do gelo previsto por Poe, por certos ocultistas alemães paranóicos, e por ufólogos malucos? Teria a Terra sido colonizada na época de Gonduana ou da Lemúria por alguma raça antiga? Seus esqueletos de répteis ainda estariam se desfazendo nos labirintos mais secretos e distantes deste sistema de cavernas? Águas paradas e dormentes, canais sem saída, poços estagnados distantes dos centros da civilização como Little America, Transport City, ou Nan Chi Han, lá embaixo, nos recessos escuros e poças das cavernas da Antártida, fungos e samambaias albinas. Suspeitamos que sejam seres mutantes, com os dedos das mãos e dos pés entrelaçados como anfíbios, hábitos degenerados - kallikaks da Terra Oca, renegados lovecraftianos, eremitas, contrabandistas incestuosos e sorrateiros, criminosos fugitivos, anarquistas forçados a se esconder depois das guerras de entropia, fugitivos do puritanismo genérico, dissidentes das sociedades secretas chinesas e fanáticos do turbante amarelo, piratas das cavernas da costa da Índia, lixo brando pálido e sem vida dos proletários das majestosas indústrias de Tongue Thwait, da costa de Walgreen e da terra de Edsel-Ford - os trogloditas têm mantido viva por mais de duzentos anos a memória folclórica da Zona Autônoma, o mito de que algum dia ela aparecerá de novo... taoísmo, filosofia libertina, bruxaria da Indonésia, culto da Caverna Mãe (ou Mães), identificada por alguns estudiosos como a deusa javanesa do mar/lua Loro Kidul, por outros como um divindade menor da Seita da Estrela Polar do Sul, a ``deusa Jade''... manuscritos (escritos em Bahasa Ingliss, o dialeto pidgin das cavernas profundas) contêm citações mutiladas de Nietzsche e e Chuang-tsé... O comércio consiste em ocasionais pedras preciosas e no cultivo de papoulas brancas, fungos, cerca de uma dúzia de diferentes espécies de cogumelos ``mágicos''... O raso lago Érebo, com 5 milhas de diâmetro, polvilhado de ilhotas pinheiros negros, mantidos numa caverna tão vasta que às vezes cria seu próprio clima... A vila oficialmente pertence a Little America, mas, em sua maioria, os habitantes são troglos vivendo de seguro-desemprego - e a caverna profunda do país tribal estende-se no outro lado do lago. A ralé, artistas, viciados em drogas, feiticeiros, contrabandistas, vagabundos e pervertidos moram em hotéis de basalto e gesso caindo aos pedaços, incrustados até a metade por pálidas trepadeiras verdes; ao longo do lago, uma avenida de esquálidos cafés, empórios de pedras preciosas defendidos por ninjas armados, botecos chineses que oferecem sopa de macarrão com pequenos camarões, o hall enfeitado vistosamente de cristal para lentos dançarinos de folk ao som dos gamelões, rapazes praticando seus mudras em sonolentas tardes eletrônicas azul-escuras ao som de gongos sintéticos e metalofones... e sob o cais, talvez alguns poucos banhistas vacilantes ao largo da praia negra; perplexos, genuínos turistas de baixa renda no santuário atrás do bazar onde troglos pálidos e velhos entram em transe com fungos, babam e reviram os olhos, respiram os fumos do incenso pesado, tudo de repente parece ameaçadoramente brilhante, piscando com ênfase... uns poucos casos de dedos entrelaçados, mas os rumores de promiscuidade ritual são verdadeiros. Estava eu vivendo numa vila de pescadores troglos, do outro lado do lago de Érebo, num quarto alugado em cima da loja de iscas... preguiça rural e degenerados ritos supersticiosos de abandono sensual, o mistério larval e doentio dos troglos mutantes ctenóides e oprimidos, preguiçosos e sem viço... Little America, tão cristã e livre de mutações, eugênica e ordeira, onde todos vivem conectados ao reino descartado de antigos softwares e holografias, tão euclidianos, newtonianos, limpos e patrióticos - Los Angeles nunca entenderá esta inocente feitiçaria suja, este ``espiritualismo material''. Esta escravidão aos desejos vulcânicos de gangues secretas de rapazes das cavernas como flores sorridentes jorrando em ereções-dínamo, pulsando pura vida, curvados e tesos como arcos, e o cheiro de água, musgo do lago, flores brancas que desabrocham durante a noite, jasmins e figueiras-do-inferno, urina, cabelo molhado de criança, esperma e lama... possuídos por espíritos das cavernas, talvez os fantasmas de alienígenas antigos agora vagando como demônios, procurando renovar prazeres da carne e de substâncias perdidos há muito. Ou talvez a Zona tenha já renascido, já um nexo de autonomia, um vírus do caos que se espalha em sua mais exuberante forma clandestina, cogumelos brancos venenosos brotando dos pontos onde garotos troglos se masturbaram sozinhos no escuro...
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fonte:http://hakimbey.blogspot.com/

OS TONG de Hakim Bey

Tuesday, October 21, 2008

OS TONG
[…]No Inverno passado li um livro sobre os Tong chineses (Primitive Revolutionaries of China: A Study of Secret Societies in the Late 19th Century, de Fei-Ling Davis) – talvez o primeiro escrito por alguém que não foi agente dos serviços secretos britânicos! (na verdade, trata-se de uma socialista chinesa que morreu jovem – foi este o seu único livro) – e percebi pela primeira vez por que sempre me senti atraído pelos Tong: não apenas pelo romantismo, ou pelo elegante cenário da decadência chinesa, que lá estão – mas também pela forma, a estrutura, a própria essência da coisa.Algum tempo depois, numa excelente entrevista de William Burroughs à revista Homocore, descobri que também ele se fascinara com os Tong e sugeria a sua forma como modo perfeito de organização para as bichas, sobretudo no actual período de histeria e moralismo medrosos. Acho que concordo, e estendo a recomendação a todos os grupos marginais, especialmente aqueles cuja fruição envolva qualquer ilegalidade (fumadores de erva, heréticos do sexo, insurreccionistas) ou alguma excentricidade extrema (nudistas, pagãos, artistas pós-vanguardistas, etc., etc.).Os Tong podem talvez ser definidos como uma sociedade de benefício mútuo para pessoas com um interesse comum, que seja ilegal ou perigosamente marginal – daí o segredo necessário. Muitos dos Tong chineses tinham a ver com o contrabando e a evasão fiscal, ou com o domínio pessoal clandestino de certos comércios (em oposição ao controlo estatal), ou com objectivos de insurreição política ou religiosa (derrubar os Manchus, por exemplo – diversos Tong colaboraram com os anarquistas na Revolução de 1911). O propósito comum dos Tong era o de recolher os direitos de filiação e as jóias de inscrição e investi-los em fundos de apoio para os indigentes, desempregados, viúvas e órfãos dos membros falecidos, despesas de funeral, etc. Numa era como a nossa, quando os pobres ficam entre a espada cancerosa da indústria dos seguros e a parede do serviço público de saúde e assistência, que rapidamente se evapora, este propósito da sociedade secreta bem poderia recuperar todo o seu atractivo. (As lojas maçónicas foram organizadas nesta base, bem como os primeiros sindicatos ilegais e as "corporações de artífices" para trabalhadores e artesãos.) Um outro propósito universal de tais sociedades era evidentemente a convivialidade, e em especial os banquetes – mas mesmo este passatempo aparentemente inócuo pode revestir implicações insurreccionais. Nas várias revoluções francesas, por exemplo, as confrarias gastronómicas desempenhavam frequentemente o papel das organizações radicais quando todas as restantes formas de encontros públicos haviam sido banidas.[…]A estrita regra tradicional do segredo também precisa de ser modificada. Hoje em dia tudo o que escape ao olhar idiota da publicidade já é virtualmente um segredo. A maior parte das gentes modernas parece ser incapaz de crer na realidade de algo que nunca viu na televisão – por conseguinte, escapar ao televisionamento é já ser quase invisível. Além disso, aquilo que é visto através da mediação dos media torna-se de certa forma irreal e perde o seu poder. […] Em contraste, talvez aquilo que não é visto retenha a sua realidade, a sua raiz na vida quotidiana e, portanto, na possibilidade de maravilhamento.[…] Muitas organizações não-autoritárias foram fundadas sobre o dúbio princípio da filiação aberta, que frequentemente conduz a uma preponderância de asnos, idiotas, salteadores, neurótticos e agentes policiais. Se os Tong se organizarem em torno de um interesse especial (nomeadamente um interesse ilegal, ou arriscado, ou marginal) terão certamente o direito de se acomodarem segundo esse princípio de "grupo de afinidade". Se o segredo significar a) evitar a publicidade, e b) vetar possíveis membros, a "sociedade secreta" dificilmente poderá ser acusada de violar os princípios anarquistas. Efectivamente, tais sociedades possuem uma longa e honrosa história no movimento anti-autoritário, desde o sonho de Proudhon, reanimar os tribunais nocturnos irregulares como forma de "justiça popular", até aos vários esquemas de Bakunine e à coluna de Durrutti. Não deveríamos permitir que os historiadores marxistas nos convençam de que tais expedientes são "primitivos" e foram, portanto, ultrapassados pela "História". O carácter absoluto da "História" é, quando muito, uma proposição dúbia. Não estamos interessados num retorno ao primitivo, mas num retorno do primitivo, atendendo a que o primitivo é o reprimido.Nos velhos tempos as sociedades secretas surgiam em espaços e tempos proibidos pelo Estado, i. e., onde e quando as pessoas haviam sido afastadas pela lei. No nosso tempo, as pessoas não são habitualmente afastadas pela lei, mas pela mediação e a alienação. O segredo torna-se assim uma fuga à mediação, ao passo que a convivialidade passa de propósito secundário a primário na "sociedade secreta". Um simples encontro face a face é já uma acção contra as forças que nos oprimem por meio do isolamento, da solidão, pelo transe dos media.Numa sociedade que obriga a uma ruptura esquizóide entre o Trabalho e o Lazer, todos nós experimentámos a trivialização do nosso "tempo livre", tempo que não está organizado como trabalho nem como lazer. ("Férias" significou outrora tempo vago – agora significa tempo organizado e preenchido pelo lazer industrial.) O propósito "secreto" da convivialidade na sociedade secreta transforma-se então na auto-estruturação e autovalorização do tempo livre. Boa parte das festas dedica-se apenas a música em alto volume e bebida em demasia, não porque o apreciemos mas porque o Império do Trabalho imbuiu em nós o sentimento de que tempo vago é tempo perdido. A ideia de convocar uma festa para, digamos, fazer uma colcha ou cantar madrigais em grupo parece irremediavelmente fora de moda. Mas os Tong modernos acharão simultaneamente necessário e agradável retirar o tempo livre ao domínio do mundo das mercadorias e devotá-lo à criação partilhada, à brincadeira.Conheço já diversas sociedades organizadas nestes termos, mas não irei certamente quebrar o seu segredo ao discuti-las aqui. Existem algumas pessoas que não precisam de quinze segundos no Jornal da Noite para validarem a sua existência. Evidentemente, de qualquer forma a imprensa e a rádio marginais (os únicos media em que este pequeno sermão irá aparecer) são praticamente invisíveis – certamente ainda muito opacas ao olhar do Controlo. No entanto, há o princípio da coisa: os segredos devem ser respeitados. Nem todos precisam saber tudo! Aquilo que mais falta ao século XX – e aquilo de que ele mais precisa – é tacto. Queremos substituir a epistemologia democrática pela epistemologia dadá. Ou se está no mesmo barco ou não se está no barco.[…] O imediatismo não se preocupa com as relações de poder; nem deseja ser governado, nem governar. Por conseguinte, o Tong contemporâneo não aprecia a degenerescência das instituições em conspirações. Pretende poder para os seus próprios propósitos de mutualidade. É uma livre-associação de indivíduos que se escolheram mutuamente para sujeitos da generosidade do grupo, para a sua "expansividade" (para usarmos um termo Sufi). Se isto resulta em algum tipo de "elitismo", pois que o seja.Se o Imediatismo começa com grupos de amigos que tentam não apenas vencer o isolamento mas também melhorar a vida de cada um, em breve pretenderá assumir uma forma mais complexa – núcleos de aliados mutuamente escolhidos, trabalhando (brincando) para ocupar cada vez mais tempo e espaço fora de todos os controlos e estruturas mediadas. Depois quererá transformar-se numa rede horizontal de semelhantes grupos autónomos – depois, numa "tendência" – depois, num "movimento" – e depois numa rede cinética de zonas autónomas temporárias [T.A.Z.]. Esforçar-se-á finalmente por se tornar no cerne de uma nova sociedade, fazendo-se nascer a si mesma dentro da casca corrupta da velha. Para todos estes propósitos, a sociedade secreta promete fornecer um enquadramento útil de clandestinidade protectora – um manto de invisibilidade que só terá de ser abandonado no caso de um confronto final com a Babilónia da Mediação…Preparemo-nos para as Guerras Tong!»[in Zona Autónoma Temporária: Lisboa, trad. Jorge P. Pires, frenesi, 2000]
fonte: http://hakimbey.blogspot.com/

Cristianismo

Cristianismo
Cristianismo (do grego Xριστός, "Cristo") é uma religião monoteísta[1] centrada na vida e nos ensinamentos de Jesus de Nazaré, tais como são apresentados no Novo Testamento.[2] A fé cristã acredita essencialmente em Jesus como o Cristo, Filho de Deus, Salvador e Senhor.[3]
A religião cristã tem três vertentes principais: o Catolicismo, a Ortodoxia Oriental (separada do catolicismo em 1054) e o protestantismo (que surgiu durante a Reforma Protestante do século XIV). O protestantismo é dividido em grupos menores chamados de denominações. Os cristãos acreditam que Jesus Cristo é o Filho de Deus que se tornou homem e o Salvador da humanidade, morrendo pelos pecados do mundo. Geralmente, os cristãos se referem a Jesus como o Cristo ou o Messias.
Os seguidores do cristianismo, conhecidos como cristãos,[4] acreditam que Jesus seja o Messias profetizado na Bíblia Hebraica (a parte das escrituras comum tanto ao cristianismo quanto ao judaísmo). A teologia cristã ortodoxa alega que Jesus teria sofrido, morrido e ressuscitado para abrir o caminho para o céu aos humanos;[5] Os cristãos acreditam que Jesus teria ascendido aos céus, e a maior parte das denominações ensina que Jesus irá retornar para julgar todos os seres humanos, vivos e mortos, e conceder a imortalidade aos seus seguidores. Jesus também é considerado para os cristãos como modelo de uma vida virtuosa, e tanto como o revelador quanto a encarnação de Deus.[6] Os cristãos chamam a mensagem de Jesus Cristo de Evangelho ("Boas Novas"), e por isto referem-se aos primeiros relatos de seu ministério como evangelhos.
O cristianismo se iniciou como uma seita judaica[7][8] e, como tal, da mesma maneira que o próprio judaísmo ou o islamismo, é classificada como uma religião abraâmica (ver também judaico-cristão).[9][10][11] Após se originar no Mediterrâneo Oriental, rapidamente se expandiu em abrangência e influência, ao longo de poucas décadas; no século IV já havia se tornado a religião dominante no Império Romano. Durante a Idade Média a maior parte da Europa foi cristianizada, e os cristãos também seguiram sendo uma significante minoria religiosa no Oriente Médio, Norte da África e em partes da Índia.[12] Depois da Era das Descobertas, através de trabalho missionário e da colonização, o cristianismo se espalhou para as Américas e pelo resto do mundo.
O cristianismo desempenhou um papel de destaque na formação da civilização ocidental pelo menos desde o século IV.[13] A primeira nação a adotar o cristianismo como religião oficial foi a Armênia, fundando a Igreja Ortodoxa Armênia, em 301.
No início do século XXI o cristianismo conta com entre 1,5 bilhão[14][15] e 2,1 bilhões de seguidores,[16] representando cerca de um quarto a um terço da população mundial, e é uma das maiores religiões do mundo.[17] O cristianismo também é a religião de Estado de diversos países.[
Principais crenças
Embora existam diferenças entre os cristãos sobre a forma como interpretam certos aspectos da sua religião, é também possível apresentar um conjunto de crenças que são partilhadas pela maioria deles.
[editar] Monoteísmo
O cristianismo herdou do judaísmo a crença na existência de um único Deus, criador do universo e que pode intervir sobre ele. Os seus atributos mais importantes são por isso a onipotência, a onipresença e onisciência.
Outro dos atributos mais importantes de Deus, referido várias vezes ao longo do Novo Testamento, é o amor: Deus ama todas as pessoas e estas podem estabelecer uma relação pessoal com ele através da oração.
A maioria das denominações cristãs professa crer na Santíssima Trindade, isto é, que Deus é um ser eterno que existe como três pessoas eternas, distintas e indivisíveis: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
A doutrina das denominações cristãs difere do monoteísmo judaico visto que no judaísmo não existem três pessoas da Divindade, há apenas um único Deus, e o Messias que virá será um homem, descendente do rei David
Jesus
Outro ponto crucial para os cristãos é o da centralidade da figura de Jesus Cristo. Os cristãos reconhecem a importância dos ensinamentos morais de Jesus, entre os quais salientam o amor a Deus e o amor ao próximo, e consideram a sua vida como um exemplo a seguir. O cristianismo reconhece Jesus como o Filho de Deus que veio à Terra libertar os seres humanos do pecado através da sua morte na cruz e da sua ressurreição, embora variem entre si quanto ao significado desta salvação e como ela se dará. Para a maioria dos cristãos, Jesus é completamente divino e completamente humano. Há no entanto, uma recorrente discussão sobre a divindade de Jesus. Aqueles que questionam a divindade de Cristo argumentam que ele jamais teria afirmado isso expressamente. Os que defendem a divindade de Cristo, por sua vez, valem-se de versículos que, através da postura de Jesus e dentro do próprio contexto cultural judaico da época, deixariam clara sua condição divina[19][20].
[editar] A salvação
O cristianismo acredita que a fé em Jesus Cristo proporciona aos seres humanos a salvação e a vida eterna.«Pois Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.» (João 3:16)[21]
[editar] A vida depois da morte
A visão de determinadas religiões cristãs sobre a vida depois da morte envolve, de uma maneira geral, a crença no céu e no inferno. A Igreja Católica considera que para além destas duas realidades existe o purgatório, um estado de purificação onde ficam as almas que morreram em estado de graça, mas que cometeram pecados.
[editar] A Igreja
O cristianismo acredita na Igreja (ekklesia), palavra de origem grega que significa "assembleia", entendida como a comunidade de todos os cristãos e como corpo místico de Cristo presente na Terra e sua continuidade. As principais igrejas ligadas ao cristianismo são: a Igreja Católica, as Igrejas Protestantes e a Igreja Ortodoxa.
[editar] Diferenças nas crenças
[editar] O Credo de Niceia
O Credo de Niceia, formulado nos concílios de Niceia e Constantinopla, foi ratificado como credo universal da Cristandade no Concílio de Éfeso de 431. Os cristãos ortodoxos orientais não incluem no credo a cláusula filioque, que foi acrescentada pela Igreja Católica mais tarde.
As crenças principais declaradas no Credo de Niceia são:
A crença na Trindade;
Jesus é simultaneamente divino e humano;
A salvação é possível através da pessoa, vida e obra de Jesus;
Jesus Cristo foi concebido de forma virginal, foi crucificado, ressuscitou, ascendeu ao céu e virá de novo à Terra;
A remissão dos pecados é possível através do baptismo (br-batismo);
Os mortos ressuscitarão.
Na altura em que foi formulado, o Credo de Niceia procurou lidar directamente com crenças que seriam consideradas heréticas, como o arianismo, que negava que o Pai e Filho eram da mesma substância, ou o gnosticismo.
A maior parte das igrejas protestantes partilham com a Igreja Católica a crença no Credo de Niceia.
[editar] Outros textos considerados sagrados
Alguns cristãos consideram que determinados escritos, para além dos que fazem parte da Bíblia, foram divinamente inspirados. Os membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias atribuem a três livros a qualidade de terem sido inspirados por Deus; esses livros são o Livro de Mórmon, a Doutrina e Convénios e a Pérola de Grande Valor. Para os Adventistas do Sétimo Dia os escritos de Ellen G. White são uma manifestação profética que, contudo, não se encontra ao mesmo nível que a Bíblia.
[editar] Origem
Ver artigo principal: História do cristianismo
Segundo a religião judaica, o Messias, um descendente do Rei Davi, iria um dia aparecer e restaurar o Reino de Israel. Na Palestina, por volta de 26 d.C., Jesus Cristo, nascido na cidade de Belém na Galileia começou a pregar uma nova doutrina e atrair seguidores, sendo aclamado por alguns como o Messias. Jesus foi rejeitado, tido por apóstata pelas autoridades judaicas. Foi condenado por blasfémia e executado pelos romanos como um líder rebelde. Seus seguidores enfrentaram dura oposição político-religiosa, tendo sido perseguidos e martirizados, pelos líderes religiosos judeus, e, mais tarde, pelo Estado Romano.
Com a morte e ressurreição de Jesus, os apóstolos, principais testemunhas da sua vida, reúnem-se numa comunidade religiosa composta essencialmente por judeus e centrada na cidade de Jerusalém. Esta comunidade praticava a comunhão dos bens, celebrava a "partilha do pão" em memória da última refeição tomada por Jesus e administrava o batismo aos novos convertidos. A partir de Jerusalém, os apóstolos partiram para pregar a nova mensagem, anunciando a nova religião inclusive aos que eram rejeitados pelo judaísmo oficial. Assim, Filipe prega aos Samaritanos, o eunuco da rainha da Etiópia é baptizado, bem como o centurião Cornélio. Em Antioquia, os discípulos abordam pela primeira vez os pagãos e passam a ser conhecidos como cristãos.
Paulo de Tarso não se contava entre os apóstolos originais, ele era um judeu fariseu que perseguiu inicialmente os primeiros cristãos. No entanto, ele tornou-se depois um cristão e um dos seus maiores, senão o maior missionário depois de Jesus Cristo. Boa parte do Novo Testamento foi escrito ou por ele (as epístolas) ou por seus cooperadores (o evangelho de Lucas e os actos dos apóstolos). Paulo afirmou que a salvação dependia da fé em Cristo. Entre 44 e 58 ele fez três grandes viagens missionárias que levaram a nova doutrina aos gentios e judeus da Ásia Menor e de vários pontos da Europa, entre eles Roma.
Nas primeiras comunidades cristãs a coabitação entre os cristãos oriundos do paganismo e os oriundos do judaísmo gerava por vezes conflitos. Alguns dos últimos permaneciam fiéis às restrições alimentares e recusavam-se a sentar-se à mesa com os primeiros. Na Assembleia de Jerusalém, em 48, decide-se que os cristãos ex-pagãos não serão sujeitos à circuncisão, mas para se sentarem à mesa com os cristãos de origem judaica devem abster-se de comer carne com sangue ou carne sacrificada aos ídolos. Consagra-se assim a primeira ruptura com o judaísmo.
Na época, a visão de mundo monoteísta do judaísmo era atrativa para alguns dos cidadãos do mundo romano, mas costumes como a circuncisão, as regras de alimentação incômodas, e a forte identificação dos judeus como um grupo étnico (e não apenas religioso) funcionavam como barreiras dificultando a conversão dos homens. Através da influência de Paulo, o cristianismo simplificou os costumes judaicos aos quais os gentios não se habituavam enquanto manteve os motivos de atração. Alguns autores defendem que essa mudança pode ter sido um dos grandes motivos da rápida expansão do cristianismo.
Outros autores entendem a ruptura com os ritos judaicos mais como uma consequência da expansão do cristianismo entre os não-judeus do que como sua causa. Estes invocam outros fatores e características como causa da expansão cristã, por exemplo: a natureza da fé cristã que propõe que a mensagem de Deus destina-se a toda a humanidade e não apenas ao seu povo escolhido; a fuga da perseguição religiosa empreendida inicialmente por judeus conservadores, e posteriormente pelo Estado Romano; o espírito missionário dos primeiros cristãos com sua determinação em divulgar o que Cristo havia ensinado a tantas pessoas quantas conseguissem.
A narrativa da perseguição religiosa, da dispersão dela decorrente, da expansão do cristianismo entre não-judeus e da subsequente abolição da obrigatoriedade dos ritos judaicos pode ser lida no livro de Atos dos Apóstolos. De resto, os cristãos adotam as regras e os princípios do Antigo Testamento, livro sagrado dos Judeus.
Em Junho do ano 66 inicia-se a revolta judaica. Em Setembro do mesmo ano a comunidade cristã de Jerusalém decide separar-se dos judeus insurrectos, seguindo a advertência dada por Jesus de que quando Jerusalém fosse cercada por exércitos a desolação dela estaria próxima, e exila-se em Pela, na Transjordânia, o que representa o segundo momento de ruptura com o judaísmo.
Após a derrota dos judeus em 70, cristãos e outros grupos judeus trilham caminhos cada vez mais separados. Para o cristianismo o período que se abre em 70 e que segue até aproximadamente 135 caracteriza-se pela definição da moral e fé cristã, bem como de organização da hierarquia e da liturgia. No Oriente, estabelece-se o episcopado monárquico: a comunidade é chefiada por um bispo, rodeado pelo seu presbitério e assistido por diáconos.
Gradualmente, o sucesso do cristianismo junto das elites romanas fez deste um rival da religião estabelecida. Embora desde 64, quando Nero mandou supliciar os cristãos de Roma, se tivessem verificado perseguições ao cristianismo, estas eram irregulares. As perseguições organizadas contra os cristãos surgem a partir do século II: em 112 Trajano fixa o procedimento contra os cristãos. Para além de Trajano, as principais perseguições foram ordenadas pelos imperadores Marco Aurélio, Décio, Valeriano e Diocleciano. Os cristãos eram acusados de superstição e de ódio ao género humano. Se fossem cidadãos romanos eram decapitados; se não, podiam ser atirados às feras ou enviados para trabalhar nas minas.
Durante a segunda metade do século II assiste-se também ao desenvolvimento das primeiras heresias. Tatiano, um cristão de origem síria convertido em Roma, cria uma seita gnóstica que reprova o casamento e que celebrava a eucaristia com água em vez de vinho. Marcião rejeitava o Antigo Testamento, opondo o Deus vingador dos judeus, ao Deus bondoso do Novo Testamento, apresentado por Cristo; ele elaborou um Livro Sagrado feito a partir de passagens retiradas do Evangelho de Lucas e das epístolas de Paulo. À medida que o cristianismo criava raízes mais fortes na parte ocidental do Império Romano, o latim passa a ser usado como língua sagrada (nas comunidades do Oriente usava-se o grego).
Durante o século III, com o relaxamento da intolerância aos cristãos, a Igreja havia conseguido muitos donativos e bens[22]. Porém com o fortalecimento da perseguição pelo imperador Diocleciano, esses bens foram confiscados.[22] Posteriormente com a derrota de Diocleciano e a ascensão do imperador romano Constantino, o cristianismo foi legalizado pelo Édito de Milão de 313, e os bens da Igreja devolvidos.[22]
A questão da conversão de Constantino ao Cristianismo é uma tema de profundo debate entre os historiadores, mas em geral aceita-se que a sua conversão ocorreu gradualmente. Como maneira de fazer penitência[22][23], Constantino ordenou a construção de diversas basílicas e outros templos e as doou à Igreja[22]. Dentre elas, uma basílica em Roma no local onde, segundo a Tradição, o apóstolo Pedro estava sepultado e, influenciado pela sua mãe, a imperatriz Helena, ordena a construção em Jerusalém da Basílica do Santo Sepulcro e da Igreja da Natividade em Belém.
Para evitar mais divisões na Igreja, Constantino convocou o Primeiro Concílio de Niceia em 325, onde se definiu o Credo Niceno, uma manifestação mínima da crença partilhada pelos bispos cristãos.[22]
Mais tarde, nos anos de 391 e 392, o imperador Teodósio I combate o paganismo, proibindo o seu culto e proclamando o cristianismo religião oficial do Império Romano.
O lado ocidental do Império cairia em 476, ano da deposição do último imperador romano pelo "bárbaro" germânico Odoacro, mas o cristianismo permaneceria triunfante em grande parte da Europa, até porque alguns bárbaros já estavam convertidos ao cristianismo ou viriam a converter-se nas décadas seguintes. O Império Romano teve desta forma um papel instrumental na expansão do cristianismo.
Do mesmo modo, o cristianismo teve um papel proeminente na manutenção da civilização europeia. A Igreja, única organização que não se desintegrou no processo de dissolução da parte ocidental do império, começou lentamente a tomar o lugar das instituições romanas ocidentais, chegando mesmo a negociar a segurança de Roma durante as invasões do século V. A Igreja também manteve o que restou de força intelectual, especialmente através da vida monástica.
Embora fosse unida linguisticamente, a parte ocidental do Império Romano jamais obtivera a mesma coesão da parte oriental (grega). Havia nele um grande número de culturas diferentes que haviam sido assimiladas apenas de maneira incompleta pela cultura romana. Mas enquanto os bárbaros invadiam, muitos passaram a comungar da fé cristã. Por volta dos séculos IV e X, todo o território que antes pertencera ao ocidente romano havia se convertido ao cristianismo e era liderado pelo Papa. Missionários cristãos avançaram ainda mais ao norte da Europa, chegando a terras jamais conquistadas por Roma, obtendo a integração definitiva dos povos germânicos e eslavos.